Tempo

Quando criança assistia ao filme Alice no País das Maravilhas e bem me lembro do Coelho, um dos protagonistas da história, que passa todo tempo correndo, com seu relógio na mão, sempre muito apressado, atrasado. Naquele tempo, na minha saudosa infância, não podia imaginar que me sentiria o próprio coelhoda Alice na minha vida adulta.
Nosso tempo não cabe mais nos ponteiros do relógio, priorizamos sempre o mundo cheio de obrigações profissionais, domésticas, burocráticas e, muitas vezes, esquecemos pequenas coisas que fazem parte do nosso dia a dia. Entramos e saímos dos corredores e elevadores como se fossemos invisíveis, sem esboçar nenhum desejo de bom dia ou um simples olhar fraterno para o outro. A velocidade do nosso cotidiano, nos “obriga” a executar multitarefas, abrindo espaço para uma vida robótica, gelada. Cordialidade, gentileza, respeito e cuidado; podemos dizer que estes pequenos gestos são parte de nossa ética cotidiana, que ora por vez encontra-se perdida no nosso tempo.

É preciso prestar mais atenção no que deve ser visto com mais profundidade, como o olhar para o outro, ser presente no seu próprio lar, realizar atividades inusitadas, como ouvir novas músicas, passear em lugares diferentes, e se conectar mais com a espiritualidade.  Para isso, precisamos reeleger nossas prioridades, levar uma vida mais leve e tranquila, tirar os olhos do relógio e aquela fala constante do coelho, sempre atrasado, do pensamento.

Diante deste tema, me pego em uma autoanalise, um tanto quando despretensiosa, e me deparo com minha própria vida, onde levei alguns dias, pouco menos de uma semana, para parafrasear estas poucas linhas, sem tempo, em meio a rotina de um mundo corporativo cada vez mais exigente e dinâmico, dos “multi” papéis que me cabem exercer, a esposa, mãe, mulher e quantos mais personagens me couber. Nas minhas madrugadas em claro, entre o choro do neném e o silencio da noite, reflito também sobre o meu tempo e, nesse pouco tempo que o meu dia me reserva, continuo correndo com esse mesmo tempo, porque ainda me restam algumas linhas para falar dessa falta de tempo.

É de suma importância que sejamos profissionais eficientes, que busquemos atingir uma carreira de sucesso. É indispensável que cuidemos com zelo e carinho do nosso lar. É mais importante ainda que nos dediquemos aos nossos filhos, pais e parentes queridos. E ainda que a gente mantenha uma conexão com o divino que nos faça crescer espiritualmente a cada dia. Mas vamos refletir juntos sobre a gestão que fazemos sob os ponteiros do nosso próprio relógio e inserir em nosso cotidiano comportamentos que nos elevem pessoalmente, numa busca constante de equilíbrio em todos esses aspectos das nossas vidas.  Só assim teremos um olhar mais profundo pelo outro e por nós mesmos, para que, deste modo, possamos levar uma vida mais leve em meio a tantos desafios.

Vamos deixa a nossa Alice de lado e parar de seguir o Coelho apressado, e como diria Caetano, em sua Oração ao Tempo, “vou te fazer um pedido, tempo, tempo, tempo, tempo”.