Ogãs na Umbanda

Fonte: Google

A palavra Ogã vem do Yorubá e significa “Senhor da Minha Casa”. Não é para menos, pois o Ogã – médium responsável pelo canto e pelo toque – ocupa um cargo de suma importância e de responsabilidade dentro dos rituais de Umbanda, que é o de conduzir a Curimba – conjunto de vozes e toques do atabaque – ajudando nos trabalhos espirituais para que possam ser fortes e bonitos. Pode-se dizer que, nos dias de hoje, os ritmos (toques) e cantos realizados pelo Ogã são parte integrante de um Centro de Umbanda.

A Curimba é um ponto de força dentro de um Terreiro de Umbanda. Sempre enaltece nossas giras, sendo de suma importância dentro do Terreiro. Os atabaques são chamados de Ilú na nação Ketu, e Ngoma na nação Angola, mas todas as nações adotaram os nomes Rum, Rumpi e Le para os atabaques, apesar de ser denominação Jeje.

Fonte da Imagem: Google

Os atabaques – instrumento de percussão – sempre foram alvos da polícia baiana e estavam terminantemente proibidos de serem tocados em Terreiros.

Aproveitando uma viagem ao Rio de Janeiro; a até então desconhecida Mãe Aninha, zeladora da casa de candomblé Ilê Axé do Opô Afonjá em São Gonçalo do Retiro, decidiu solicitar uma reunião com Getúlio Vargas, que na época ocupava o cargo da Presidência do Brasil.

Nessa reunião, foi discutido o assunto sobre os atabaques nos terreiros, pois como dizia Mãe Aninha, para dar originalidade e ritmo às festividades era preciso os instrumentos de percussão. Ela fora tão determinada que conseguiu “arrancar” de Getúlio Vargas um decreto que liberava o uso de atabaques em Terreiros.

Este ato foi considerado um grande passo para o Culto de Nação no Brasil, que de pouco a pouco ganhava espaço na sociedade brasileira. Esse acontecimento foi recebido com grande festividade pelo povo de santo, principalmente na Bahia, onde foi comemorado com a famosa festa da Lavagem da Escadaria do Senhor do Bonfim. O responsável pelo toque, o Ogã, tem de ser bem preparado e Coroado como Ogã para exercer tal função em um Terreiro, pois além de serem médiuns intuitivos, são sacerdotes natos, aqueles que nascem com a função de falar por um Orixá, de serem um Instrumento puro dos Orixás e fazem isso através de suas mãos e cantos.

O Ogã é um canal aberto para muitas linhas de trabalho da Umbanda que trabalham ativamente através dele. São linhas de caboclos, exus, pombagira, etc… que, por motivos próprios, trabalham nos “bastidores”, sem incorporarem ou tomarem a “linha de frente” dos trabalhos espirituais. Formam uma corrente de espíritos que auxiliam nos toques e cantos da “curimba”; são mestres na música de Umbanda, verdadeiros guardiões dos mistérios do “Som”.

Uma função ritualística, onde os pontos “marcam” todas as partes do ritual da Casa. Assim temos pontos para a defumação, abertura das giras, bater cabeça, chamada, subida, sustentação dos Guias e fechamento de gira. Uma outra função importante é de emitir ondas energéticas pelo som do atabaque e pelos cantos que servem para diluir algumas energias astrais negativas que não fazem bem ao médium.

A curimba é um verdadeiro “polo” irradiador de energia dentro do Terreiro, potencializando ainda mais as vibrações dos Orixás, ajudando os médiuns tanto na hora das incorporações, desincorporações e da firmeza de um trabalho. A curimba, por si só, emite energia suficiente capaz de descarregar um médium ou uma Casa.

Por isso a curimba deve sempre estar em sintonia com os Guias Espirituais, com os Orixás e com o Dirigente do trabalho. O Ogã deve estar sempre pronto e procurando aprender mais e mais. Sempre com amor, pois quando vibramos de coração, os cantos atuam sobre nossos chacras, ativando-os, e deixando-nos em total sintonia com a Espiritualidade Superior.

Os pontos transformam-se em “orações cantadas”, ou melhor, verdadeiras determinações de magia, com um altíssimo poder de realização, pois é um fundamento Sagrado e Divino. Poderíamos chamar tudo isso de “magia do som” dentro da Umbanda, pois não é simplesmente evocar uma Divindade, mas é chamado de magia por envolver toda uma “cadeia” onde o som da curimba atua nos médiuns positivando-os e equilibrando-os. Infelizmente, não temos visto nos templos de Umbanda uma preocupação com a qualidade da curimba, ou seja, com o conjunto de vozes e toques de atabaques.

Há templos em que os atabaques são “tocados” com tanta força que parece que os Ogãs estão descarregando sua energia e sentimentos negativos nos couros dos instrumentos e não é possível ouvir as letras dos pontos cantados e, às vezes, nem mesmo a melodia. Em outros lugares, há uma preocupação com a afinação, mas há negligência quanto aos ritmos e instrumentos, ou então, os atabaques são muito bem tocados, mas o canto é completamente desafinado. Pior, ainda, é quando não se prioriza nem uma coisa nem outra, porque na verdade é o conjunto em que um completa o outro, formando uma grande harmonia.

É válido lembrar também, que esses problemas de musicalidade são percebidos por muitos frequentadores que, além do “stress” auditivo, saem comentando a desarmonia, o que pode desprestigiar a Casa e a comunidade umbandista, em relação ao nível de excelência que deveria ser alcançado.

Na Umbanda o Ogã é um Sacerdote nato, e seu dever é ser disciplinado, atento, sensível aos mínimos detalhes, coerente, correto e principalmente humilde. O respeito que os Ogãs devem ter pela Mãe e pelo Pai é enorme pois o Ogã nada mais é que o exemplo a ser seguido na gira pelos médiuns da casa, portanto devem passar uma imagem discreta, humilde e respeitosa.

Certa vez, Pai Ronaldo Linares disse que existem três tipos de ogãs:

– os que cantam melodiosos para as entidades,

– os que cantam forte para as entidades virem fortes,

– e os que cantam para levantar defunto!

Para se ter uma boa curimba, temos que ter bons Ogãs preparados para tal função, o que não é nada fácil. Cantar não é gritar; o canto tem que ser feito de forma melodiosa, com o coração, cantar nada mais é que expressar todos seus sentimentos nesse ponto, sentimentos de alegria, gratidão, respeito e etc.

Fonte da Imagem: Google

Os Ogãs devem ter uma postura forte e segura, pois essa é a imagem de um Ogã! Seguem, abaixo, algumas classificações de Ogãs nas diversas nações do Candomblé, visando ampliar nossos conhecimentos acerca do tema abordado.

No Candomblé Jeje os Ogãs são classificados como:

Pejigan : é o primeiro Ogã da casa Jeje. O mais velho de todos os Ogãs é geralmente o mais sábio.

Runtó : é o segundo, que é o tocador do atabaque Run.

Axogun : é um Ogã de suma importância no Candomblé, pois é o responsável pela execução sacrificial dos animais votivos, e é um especialista no que faz.

No Candomblé Ketu os Ogãs são classificados como:

Alagbê : o chefe dos tocadores de atabaques, os instrumentos de percussão.

Ogã Gibona : zelador da casa de Exu, outro Ogã de suma importância, pois seus conhecimentos ajudam na firmeza da casa.

Ogã Apontado : pessoa apontada como possível candidato a Ogã. Equivalente ao Ogã suspenso.

Ogã Suspenso : pessoa escolhida por um Orixá para ser um Ogã, é chamado suspenso, por ter passado pela cerimônia onde é colocado em uma cadeira e suspenso pelos Ogãs da casa, significando que futuramente será confirmado e passará por todas obrigações para ser um Ogã. Há também outros Ogãs como Gaipé, Runsó, Gaitó, Arrow, Arrontodé.

No Candomblé Bantu os Ogãs são classificados como:

Tata NGanga Lumbido – Ogã guardião das chaves da casa.

Kambondos – Ogãs, Kambondos Kisaba ou Tata Kisaba – Ogã responsável pelas folhas.

Tata Kivanda – Ogã responsável pelas matanças, pelos sacrifícios animais (mesmo que axogun).

Tata Muloji – Ogã preparador dos encantamentos com as folhas e cabaças.

Tata Mavambu – Ogã ou filho de santo que cuida da casa de Exu.

Xicarangoma – O chefe dos tocadores de atabaques, os instrumentos de percussão.

Na próxima edição, iremos aprofundar nossos estudos em relação ao tema “som” em toda sua essência, e da necessidade de compreendermos que a música afeta a matéria, pois o som é poder, é energia criadora.

Até a próxima edição!!!!!