O “Espetáculo” da Umbanda na TV: Seu 7 Rei da Lira (PARTE II – Final)

Saravá, queridos irmãos!

Como é bom estar de volta neste trabalho de tão grande luz. E, para este retorno, seguirei contando a história do Exu Seu 7 Rei da Lira, que tanto mexeu com o Brasil há cerca de 50 anos atrás. (Caso não tenha lido a Parte I, faça-o agora para dar maior proveito ao seu aprendizado.)

Nos dias de sessão, multidões se amontoavam no sítio em Santíssimo em busca das mais variadas graças: sentimentais, financeiras ou curas diversas. Seu Sete chegava sempre às 21h de sábado e, por diversas vezes, trabalhava até cerca das 10h da manhã de domingo, passando todo esse período cantando e tomando marafo (ele consumia cerca de 40 litros de cachaça por noite), além, é claro, de praticar os mais diversos atendimentos. Todos gratuitos. Seu Sete não aceitava nenhum tipo de pagamento.

O público que seguia pelas vielas do Bairro era formado pelos mais variados tipos: pobres, ricos, personalidades do meio artístico, do esporte e da política procuravam Seu Sete Rei da Lira para as mais variadas curas. Muitos creditavam a ele a cura das suas mazelas físicas.

Um dos grandes momentos das sessões era quando o Seu Sete, à meia-noite (a “Hora Grande”) realizava uma espécie de meditação, onde convidava a todos a fazerem uma autoavaliação das suas vidas, onde eles próprios poderiam notar o que realmente os atrapalhavam na sua caminhada e, que muitas vezes, os levavam ao mal pelo qual estavam passando. Após esse momento, ele caminhava em cima de uma enorme mesa de madeira, de onde jogava marafo nos que no chão se encontravam, realizando descarregos e curas.

Todo esse fenômeno que, já era relatado pela mídia impressa, chegou aos ouvidos de Flávio Cavalcanti, apresentador de TV, que imediatamente enviou uma equipe para o local de forma a levar o Seu Sete para o seu programa. Chacrinha, outro apresentador de TV icônico e que “brigava” com Cavalcanti pelos índices de audiência aos domingos, atentou-se ao fato e também enviou uma equipe para o local. Tendo sua equipe chegado antes da equipe rival do rival Flávio, Chacrinha conseguiu levar Seu Sete para o seu programa. Da-se então o início de um dos casos mais famosos da TV brasileira.

Ao pisar no palco do programa do saudoso Chacrinha no dia 29 de Agosto de 1971, uma verdadeira revolução ocorreu: cantores, funcionários do programa, pessoas da plateia e vários outros entraram em transe mediúnico, dando início a uma verdadeira sessão de Umbanda, com vários Exus e Pombagiras. Ao término de sua participação, o Seu Sete foi levado para o palco de Flávio Cavalcanti e, assim como ocorrido no programa anterior, várias pessoas também entraram em transe e mais uma “sessão de Umbanda” dava-se início. Um dos fatos mais, digamos, folclóricos (pois não há provas de que tenha realmente ocorrido) esteve ligado ao Presidente da República da época, Emílio Garrastazu Medici e sua esposa. Diz-se que, ao notar o acontecimento na TV, Medici iria tomar providências. Não o teria feito pois sua esposa, incorporada, teria dito para ele “não mexer com o que não pode”.

O ocorrido mexeu com todo o país, causando reboliço em todos os meios de comunicação da época. Ambas as emissoras (Globo e Tupi) foram alvos de muitas críticas por vários âmbitos da sociedade. Relatou o Estado de São Paulo (03/09/1971, pag. 4), “o espetáculo em si foi o mesmo: os umbandistas de ‘Seu Sete’ invadiram o palco (baianas, cantores, pessoas bem vestidas, em ‘relações públicas’…) num tumulto indescritível.” A Igreja Católica, através do seu Cardeal à época, Dom Eugênio Sales e do secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Dom Ivo Lorscheiter, após assistirem o vídeo, concluíram que “já não se trata mais de uma questão religiosa, mas de saúde pública: os acontecimentos exigem profunda reflexão por parte dos responsáveis pelos meios de comunicação; a imagem do Brasil no exterior ficou prejudicada com a exibição de uma subcultura”. O próprio Flávio Cavalcanti enviou um telegrama ao Ministro das Comunicações e ao chefe do Serviço de Censura e Diversões Públicas onde explicava o porquê de colocar a “atração” no script do programa. Já as duas emissoras, Globo e Tupi, assinaram um acordo em parceria onde no qual se comprometiam a excluir de suas programações nove gêneros de shows, entre os quais “fatos ou pessoas que sirvam para explorar a crendice ou incitar a superstição, bem como falsos médicos, curandeiros ou qualquer tipo de charlatanismo. As críticas foram não somente provenientes do meio externo da religião mas também de próprios adeptos da Umbanda. O Conselho Deliberativo dos Órgãos de Cúpula de Umbanda acusou Mãe Cacilda de deturpar a religião e afirmou que Seu Sete Rei da Lira não era um representante da Umbanda, apoiando inclusive uma maior censura aos programas de televisão. Atrelado ainda a aparição do Seu Sete na TV foram também destacados dois fatos policiais: o suicídio de um médium dentro de um centro espírita e um indivíduo que atirou em outro, após uma discussão a respeito do Exu. Ambos os casos ocorreram no momento da exibição dos programas.

Após o ocorrido, D. Cacilda continuou trabalhando com o Seu Sete em seu sítio em Santíssimo, só voltando a dar entrevistas na década seguinte. Continuou com várias práticas caritativas, mesmo sendo acusada de desvio de dinheiro (para provar o contrário, marcou uma reunião extraordinária para mostrar toda a documentação da sua tenda). Até hoje ainda existem muitas matérias que apoiam ou denigrem a Mãe de Santo. As consultas abertas ao público ocorreram até o ano de 2002 e continuaram para a família até o seu desencarne em 2009, aos 92 anos de idade.

Os novos tempos e as novas tecnologias nos abrem oportunidades extraordinárias para nos desenvolvermos em vários âmbitos como saúde, educação, comunicação etc. A grande questão é como poderemos aproveitar essas novas ferramentas de forma a auxiliarmos a nós próprios e a todos ao nosso redor pois as mesmas ferramentas que produzem coisas positivas podem ser instrumentos da vaidade e das mazelas humanas. Cabe a nós interpretarmos a mensagem que é divulgada e analisarmos se o seu cunho é positivo. Seu Sete Rei da Lira talvez realmente tivesse como missão divulgar a Umbanda através da mídia. Talvez ele fosse mais um recurso utilizado pelo Poder Superior para alcançar um número maior de pessoas em um período tão conturbado como foi o Período da Ditadura Militar. Mas muitos não viram isso. Viram somente uma mulher querendo um destaque à frente das câmeras. Os seus 15 segundos de fama. Resta-nos perguntar: o que podemos tirar de enriquecedor de toda a história do Seu Sete? Quais palavras, quais ações que podem nos ajudar a refletir a respeito da Umbanda e do desenvolvimento da cultura popular dentro de uma sociedade ainda muito preconceituosa? Resta-nos apenas refletir. E não julgar.

Muito axé a todos!!

 

“Se o Cristo vivesse hoje, ele pregaria seu Evangelho através de uma cadeia de televisão. Pelo satélite. O amor chegaria mais rápido ao coração do rebanho”.

(Seu Sete Rei da Lira)

Fontes da pesquisa:

Jornal do Brasil, 3 de setembro de 1971, 1º. Caderno, pag. 12, em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&PagFis=39477&Pesq=cacilda%20de%20assis. Acesso em 03/06/2018.

Jornal do Brasil, 11 de fevereiro de 1972, Caderno B, pag. 2) em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&pesq=cacilda%20de%20assis&pasta=ano%20197. Acesso em 04/06/2018.

Revista O Cruzeiro, 19 de maio de 1971, pag. 6-14, em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=003581&pesq=cacilda%20de%20assis&pasta=ano%20197. Acesso em 03/06/2018.

http://filhosdavovorita.blogspot.com/2016/05/mediuns-ilustres-cacilda-de-assis.html. Acesso em 04/06/2018

Revista O Cruzeiro, 30 de Junho de 1971, pag 40-44, em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=003581&PagFis=180657&Pesq=rei%20da%20lira. Acesso em 05/09/2018

Jornal O Fluminense, 31 de Agosto de 1971, pag 3, em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=100439_11&pesq=rei%20da%20lira. Acesso em 05/09/2018