O “Espetáculo” da Umbanda na TV: Seu 7 Rei da Lira (PARTE I)

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Olá, queridos irmãos!

Fico feliz, não somente por poder dividir novamente o conhecimento que adquiri nesta minha caminhada com vocês, mas também por ter a oportunidade de relembrar fatos e pessoas que foram (e são) importantes para a nossa Umbanda.

Desde a sua anunciação, em 1908, a Umbanda tornou-se um instrumento da espiritualidade para atingir os seus mais altos anseios. Utilizar-se de figuras culturais sempre foi uma das suas ferramentas para poder nos fazer crer em um Poder Divino Superior e na nossa possibilidade de nos melhorarmos enquanto encarnados, além de nos auxiliar nos desafios do dia a dia. Sendo assim, ela utilizou-se de vários médiuns e vários espíritos para alcançar as suas metas de formas bem singulares. Uma delas foi com o trabalho do Exu Seu 7 Rei da Lira, através da médium Cacilda de Assis, que culminou em dois programas de TV nos anos 70 – dos saudosos Flávio Cavalcante e Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”.

Cacilda de Assis, nascida no dia 15 de março de 1917, no município de Valença, interior do estado do Rio de Janeiro, até a idade de cinco anos não apresentava nenhum sinal mediúnico, ou como alguns diriam, sobrenatural, tendo os hábitos comuns aos das crianças dessa faixa etária. No entanto, a partir de um certo dia, passou a pedir um charuto para a sua mãe. Indignada, a mãe de Cacilda negava. Até que um dia, conseguiu, tendo muitas vezes ido fumar escondida na fazenda onde morava. Após conseguir o charuto, Cidinha (apelido carinhoso da infância) passou a pedir cachaça à família e aos vizinhos. A sua mãe, D. Rute, se revoltava contra o que via e liberou, a contragosto, a bebida. A menina então bebeu cerca de 1L (!!!) e logo se acalmou.

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Entretanto, foi aos sete anos de idade, que as manifestações mediúnicas passaram a ser mais contundentes (já nesta idade, a menina só vestia roupas em tons azul e branco ou rosa e branco, como uma oferenda a Nossa Senhora da Conceição para salvá-la, de acordo com a sua mãe). Certo dia, ela estava brincando normalmente em uma festa, quando, de repente, desmaiou. Imóvel, com o corpo deitado no chão da fazenda foi examinada por médicos, os quais atestaram que todos os seus sinais vitais estavam normais. Passaram-se dias e a situação manteve-se a mesma até que uma senhora rezadeira foi convidada por um familiar da menina para ajudar na sua cura. A mulher utilizou um copo d’água e alguns cantos “misteriosos” e logo em seguida, Cacilda acordou perguntando “E a festa?”.(*) Tempos após o fato ocorrido, Cacilda se mudou com a família para a cidade do Rio de Janeiro.

Sendo médium de entidades como Maria Audália, Vovó Cambinda e Cabocla Jurema (a qual a casa que fundou pertencia – Tenda Espírita de Umbanda Filhos da Cabocla Jurema) ficou nacionalmente conhecida por trabalhar incorporada com o Exu Seu Sete Rei da Lira, com o qual teve sua primeira incorporação aos 13 anos de idade. No dia 13 de junho de 1938, aos 15 anos, fez o seu Otá em Abodé Ogeré, ou seja, o assentamento do Seu Sete, a partir da mão do Pai de Santo Benedito Galdino do Congo, em Coroa Grande, próximo a Itaguaí. Com “mãos de jogo”, só o praticava para os seus próprios filhos de santo e em ocasiões especiais, sendo também todo o trabalho praticado no seu terreiro feito de forma caritativa.

Por volta do início da década de 40, abriu o seu “centro espírita”, no bairro de Cavalcante, mantendo-se no local por 12 anos. Escritora, compositora e radialista, tinha um programa na Rádio Metropolitana e foi casada com o corretor de seguros José Gomes, com o qual tinha oito filhos (sendo cinco adotivos). Morava na Avenida Atlântica, em Copacabana.

Todavia, principalmente devido ao trabalho realizado pelo Seu 7 da Lira, o imóvel onde se localizava seu terreiro não comportava o grande número de pessoas que procuravam a casa para receber as mais variadas graças, desde a melhora de problemas de saúde, a questões amorosas ou financeiras. Foi necessária a mudança para um espaço maior, no bairro de Santíssimo, distante 40km do centro da cidade, no qual poderia alcançar mais de 5000 pessoas durante uma única sessão. Em um sítio extenso (falava-se em cerca de 200 a 300 mil metros quadrados) foi construído um dos maiores templos da Umbanda até então conhecido no país. Para evitar quaisquer dúvidas em relação à procedência do dinheiro para a compra do terreno, Cacilda deixava claro que foi a partir de um prêmio da loteria que seu filho o havia conseguido  seguindo os conselhos do Seu 7 para que fizesse a aposta. Em dias de sessão, todo o entorno do local era tomado por centenas de veículos, barraquinhas de comida e estacionamento, tudo organizado pela própria vizinhança que via nestes encontros uma oportunidade de ganhos financeiros.

Quem era e como trabalhava este Exu? O que ele fazia de tão especial para agregar milhares de pessoas em uma única sessão a ponto de se apresentar nos programas de Flávio Cavalcantá e Chacrinha, deixando seus âncoras desconsertados, no ano de 1971? Como o Governo Militar, em plena ditadura, viu este fenômeno popular?

Vou deixá-los com água na boca para a próxima edição (risos…). Desejo somente que possamos refletir como a nossa querida Umbanda possui várias artimanhas para nos levar ao encontro da Luz Divina. Vou deixá-los com a letra da música “O que passou, passou” de autoria de Cacilda de Assis e Milton Alexandre, uma das vencedoras do VI Concurso de Músicas para o Carnaval, organizado pela TV Tupi e pela Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, em 1971.

Fiquem com Deus! Namastê!

Pode voltar

Meu grande amor

Aqui foi sempre o seu lugar

O que passou, já passou

Estou de braços abertos a lhe esperar

 

Já não suporto mais

Esta saudade

Noite e dia a me torturar

Oh vem depressa

Aos braços meus pra ficar

Juro, não vou mais brigar

 

(*) Na mesma fonte pesquisada, há o indício que na mesma festa de aniversário, Cacilda já tivesse incorporado a Cabocla Jurema.

 

Fontes da pesquisa:

Jornal do Brasil, 3 de setembro de 1971, 1º. Caderno, pag. 12, em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&PagFis=39477&Pesq=cacilda%20de%20assis. Acesso em 03/06/2018.

Jornal do Brasil, 11 de fevereiro de 1972, Caderno B, pag. 2) em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&pesq=cacilda%20de%20assis&pasta=ano%20197. Acesso em 04/06/2018.

Revista O Cruzeiro, 19 de maior de 1971, pag. 6-14, em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=003581&pesq=cacilda%20de%20assis&pasta=ano%20197. Acesso em 03/06/2018.

http://filhosdavovorita.blogspot.com/2016/05/mediuns-ilustres-cacilda-de-assis.html. Acesso em 04/06/2018