Como arrumar as gavetas e a vida

Conversávamos sobre todos os assuntos quando a lida diária permitia. Eu e minhas meninas abríamos a caixa com as fotos misturadas: antigas e novas ajudando a indeterminar o tempo. Sentávamos no chão e as espalhávamos, numa tentativa minha de arrumar a suposta bagunça em álbuns. Me perdia em nossos voos até o passado, deixando para depois o desejo de ordem. Encontrávamos traços nossos em outras mulheres da família, na herança que nos deixaram na cor de nossos cabelos, nos olhos, no sorriso… e assim entendíamos a ideia de eterno. Incrível como os encontros inesperados com a história da família despertavam, no meio da tarde, nossa curiosidade. Aquelas pessoas esculpiram nosso corpo e povoaram nossa alma com lembranças.

Você já deve ter reconhecido cheiros, sabores, lugares, uma música, ou ainda um rosto no meio de tantos outros. Fantástico é perceber a volta de determinadas sensações familiares. As fotos da caixa (todos temos uma mesmo que imaginária) nos levam a perguntar qual de nós herdou o gênio audacioso da bisavó, ou quem ficou com o lenço de linho passado por várias mãos. Sem saber, fizemos um pacto com os nossos antepassados, o de guardar a história dos que não conheciam a escrita, até os de agora. As mais variadas nuances de todos nós: corpo e espírito.

O que se guarda tem, dizia minha mãe reproduzindo oque ouviu dos mais velhos. Atendi com ressalvas ao seu pedido. Guardei lembranças: paninhos dela de crochê, a voz da minha professora de português, desenhos das meninas, cartas, livros, o instante do nascimento das filhas, uma xícara da minha avó com desenhos japoneses e uma infinidade de outras coisas. A memória conta com essas lembranças, mesmo sendo muito mais que isso.

Nos dias em que acordo chovendo por dentro, bem triste, recorro às memórias. As que posso estender numa corda imaginária ao sol, deixando iluminar os pensamentos, limpam também a tristeza do coração. Assim vivemos. Vivemos quando estamos ligados a nossa história, procurando saber de onde viemos e quais foram as mãos que nos conduziram até aqui. Vivemos quando compartilhamos momentos, permitindo que as histórias se cruzem. Precisamos conviver. Precisamos saber o que o outro tem a nos dizer, seja com palavras, ou com seus silêncios.

Se tentarmos encontrar no outro os traços que nos aproximam, veremos o quanto somos parecidos. Ao falarmos de nós, despertamos quem nos ouve. Falar e ouvir nos torna humanos.