A Maturidade do Povo do Axé

Fonte: Espacoluid

A intolerância religiosa é tão antiga quanto a humanidade. Vão longe os tempos onde expressar o pensamento podia ter como consequência a condenação à morte. Déspotas, tiranos, assim como religiões e doutrinas, oprimiram e cercearam a livre expressão do pensamento. Criada na idade Média, a denominada “santa inquisição” foi um “modelo de tribunal religioso” criado para condenar todos aqueles que eram contra os dogmas pregados pela Igreja Católica. Mais tarde, após o descobrimento do Brasil, foi a vez dos jesuítas imporem aos índios aquilo que aprendemos nos bancos escolares como “catequese.” Posteriormente ao “anúncio” da materialização da religião de Umbanda, mais precisamente na era Vargas, vivíamos a ditadura do “estado novo”, quando nossos terreiros eram invadidos, depredados, as pessoas envolvidas presas, até que, nos dias atuais, muitos ainda insistem em fomentar suas tendências de intolerância e desrespeito aos valores espirituais, principalmente, quando a origem é “Africanista”. A partir daí, partimos para algumas reflexões, através das quais poderemos identificar a causa primária de tantas agressões. Está bem claro que todos os segmentos ditos “espiritualistas,” estão sujeitos a toda sorte de preconceitos vindos daqueles que ainda não se aperceberam da verdadeira finalidade de nossa passagem terrena. Mas está estatisticamente comprovado que os adeptos das religiões de matrizes Africanas são o alvo preferido dos intolerantes. Sem desejarmos invadir questões doutrinárias para justificar tais dados e, como diria Albert Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo do que acabar com o preconceito”, passemos a considerar que precisaremos conviver com a intolerância, porém necessitamos fazer valer nossos direitos previstos na carta magna do país, quando se lê no inciso VI do artigo 5º “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantidos, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.” Mas como exigir o cumprimento do que nos confere a constituição federal? Como mostrar a nossa força como parte integrante de uma sociedade civil, se não saímos dos limites de nossos terreiros? Qual a forma de nos organizarmos enquanto importante ferramenta para a transformação da humanidade, se olhamos para o nosso irmão de crença como um “concorrente, um inimigo” e não com a visão fraterna de trabalhadores da Alta Espiritualidade? Como podemos mostrar a sociedade que existimos, se nas caminhadas que são realizadas anualmente na orla de Copacabana identificamos um número inexpressivo de terreiros? Enquanto participantes de outras religiões se unem em movimentos nacionais, nós das tradições Afro cada vez mais divergimos dentro de nossa própria casa, nos enfraquecendo e, por que não dizer, nos  separando. Lembremos que Jesus encontrou as primeiras manifestações de traição, abandono, ofensa e negação dentro de seu próprio grupo apos­tólico. O Astral Superior, nas suas mais variadas formas de se manifestar, tem-nos revelado os alertas indispensáveis para o momento em que atravessamos. Se não trabalharmos pela construção de relações mais afetivas e legitimamente fraternas, colocando as normas e convenções a serviço deste objetivo, deixando de lado sentimentos como o orgulho, nas suas mais diversas manifestações, nossas instituições correm o risco de estacionarem no convencionalismo que marcou os primórdios de nossos credos, fazendo com que os mesmos chegassem ao ponto de se esconderem quando desejavam realizar suas atividades sagradas. Nas atuais circunstâncias nos parece que regressamos ao passado, pois quantos terreiros ainda precisaremos assistir serem invadidos, incendiados? Até quando observaremos de “braços cruzados” nossos valores espirituais serem vilipendiados? Quantas “Kailanes” ainda conheceremos? Quantas pedradas ainda receberemos? A nossa tônica é o “velho discurso” sem prática, a emoção em detrimento da ação. Já passou da hora do povo de axé sair dos limites físicos de seus terreiros e vir pra rua debater o momento do legado que recebemos de nossos ancestrais, de exigir não a tolerância, mas o respeito às nossas divindades e a partir daí construirmos o amanhã com as armas da organização, da cultura e da paz. Como diria o célebre Pastor Martin Luther King: “O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem caráter e nem dos sem ética”. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons.